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Imprensa da Universidade de Coimbra
Compaixão, expiação e indiferença do Estado: notas sobre a tragédia de Entre-os-Rios
Compaixão, expiação e indiferença do Estado: notas sobre a tragédia de Entre-os-Rios
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No dia 4 de março de 2001, por volta das 21 horas e 10 minutos, o desabamento do pilar P4 da Ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, provoca a queda parcial da estrutura do tabuleiro. Um autocarro, com 53 pessoas a bordo, e três viaturas ligeiras, com seis ocupantes, são atirados para as águas gélidas do rio Douro. Cinquenta e nove pessoas perdem a vida.
Mais de uma década volvida sobre o desastre, este tem vindo progressivamente a converter-se num mero acontecimento local e a perder muito do desassossego de que foi inicialmente tomado.
O desassossego que a Tragédia de Entre-os-Rios provoca hoje, não reside na compaixão que conduziu à lógica de expiação adotada pelo Governo de António Guterres, mas sim no facto do desastre ter dado origem a uma relação excecional entre um Estado penitente e pessoas sofredoras e não a uma relação normal entre um Estado de Direito e cidadãos lesados. Pelo facto das lágrimas que se choraram, então, terem conferido um simulacro de poder político ao território e aos familiares das vítimas precisamente por serem lágrimas.
É isto que provoca desassossego.
Mais de uma década volvida sobre o desastre, este tem vindo progressivamente a converter-se num mero acontecimento local e a perder muito do desassossego de que foi inicialmente tomado.
O desassossego que a Tragédia de Entre-os-Rios provoca hoje, não reside na compaixão que conduziu à lógica de expiação adotada pelo Governo de António Guterres, mas sim no facto do desastre ter dado origem a uma relação excecional entre um Estado penitente e pessoas sofredoras e não a uma relação normal entre um Estado de Direito e cidadãos lesados. Pelo facto das lágrimas que se choraram, então, terem conferido um simulacro de poder político ao território e aos familiares das vítimas precisamente por serem lágrimas.
É isto que provoca desassossego.
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